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O CAVALO PSICOPATA DOS INFERNOS

 

 

Na virada de dois mil e treze pra dois mil e quatorze, eu me enfiei em um hotel-fazenda para poder andar a cavalo todos os dias.

 

Sim, haja bunda.

 

Mas acontece que eu tinha descoberto recentemente que amo andar a cavalo. Mas amo num grau que eu não sei como eu não nasci Ana Raio ou segui em uma carreira de palhaço de rodeio.

 

Bem, eu sei. Acontece que eu sempre fui, ao mesmo tempo, muito gorda e muito conscienciosa de que sentar cento e vinte quilos no lombo do cavalo é pedir pra dar merda.

 

E aí aos quarenta anos eu emagreci quarenta quilos e resolvi compensar uma vida em quinze dias. Era pocotó atrás de pocotó.

 

E um dia alguém cometeu um erro e trouxe pra mim, uma hóspede que precisava da alça de aprendizado da sela, um cavalo que não era do hotel.

 

Era de alguém que pagava a hospedagem do seu próprio cavalo.

 

Um cavalo que não era selado há três meses, conforme soube depois.

 

E era um cavalo maravilhoso, gigantesco, indócil, pelo qual eu me apaixonei à primeira vista e, vendo o brilhinho nos meus olhos, o tratador, que já era meu chapa àquela altura, me chamou e me colocou lá em cima.

                     E quando eu digo “me colocou lá em cima” pode entender literalmente, porque minha prática era tanta que, sem um banquinho, pra eu subir em um cavalo alguém precisava me empurrar pela bunda.

 

Nível de constrangimento: alto.

 

Porém, para minha sorte, número de flagrantes que chegaram ao Youtube: zero.

 

E os pangarés do hotel... pocotó, e o cavalo gigantesco comigo em cima... SUPER POCOTÓ TURBO. Eu me achando. E galopando lá na frente. E voltando pro grupo pangaré. E galopando de novo. Roberta, a amazona.

 

Até que, na volta, o cavalo mostrou, da forma mais traumatizante, que era um psicopata: ele disparou, a toda, correndo desesperadamente feito um filho da puta, e, não contente, resolveu passar, naquela velocidade, entre o pneu de um trator e um tronco que sustentava o telhado que protegia o trator da chuva.

 

Era um vão - no meio de um monte de espaço livre em volta, aliás - em que só cabia o cavalo. E até ele efetivamente chegar ao vão, eu achei que nem o cavalo ia caber.

 

Tudo isso durou de quinze a vinte segundos, se tanto, mas eu consegui antever os próximos anos da minha vida, a partir dali: eu iria ficar tetraplégica, como aquele ator que fez o Superman nos anos oitenta, depois de estraçalhar meus dois joelhos - o direito no trator, o esquerdo no tronco - por causa do cavalo psicopata dos infernos, e fraturar a coluna ao cair pra trás com o choque.

 

Junte aulas de física com ansiedade e esse é o nível de detalhamento dos pesadelos.

 

Eu iria ficar horas estirada no chão, no meio da lama, talvez com os tratadores e hóspedes em pânico tentando me socorrer e piorando a situação.

 

Iria de ambulância sacolejando em uma estrada de terra, até chegar em um hospital, um milhão de cirurgias, a depressão depois do diagnóstico irreversível, eu conversando com a Mara Gabrilli e dizendo “não consigo ser assim, me conte, por favor, como você pode ser tão maravilhosa nessa situação”, eu voltando a morar com a minha mãe, as finanças da família escoando pelas mãos como areia.

 

Vi tudo isso em cinco segundos, enquanto ouvia, ao longe, os gritos dos hóspedes do grupo pangaré, e via o trator se aproximando de maneira catastrófica.

 

E, sem pensar, eu tirei os pés do estribo, levantei os joelhos o mais pra cima que eu consegui e me agarrei naquela sela como se ela fosse a porta e eu, a Rose, no filme do Titanic.

 

O cavalo parou bruscamente quando chegou na baia que estava à frente, e eu estava tão firme naquela posição salva-vidas que não cheguei nem a ameaçar cair. Eu simplesmente voltei com os pés no estribo, olhei em volta, entendi que não tinha ficado tetraplégica e ainda decidi continuar montada no cavalo até o ponto de chegada do passeio, que era mais em frente.

 

Pois ele disparou novamente e eu fui gritando SAI DA FRENTE para os hóspedes pedestres, até que alcançamos o ponto de chegada e o cavalo se lançou aos potões de ração que o esperavam.

 

Foi aí que eu vi o que tinha acontecido: nada.

 

As laterais dos meus dois pés ficaram inteiras raladas. E só.

 

Às vezes a gente se desespera porque racionaliza demais.

 

Às vezes a gente se desespera e tenta se jogar de um cavalo que não ia te derrubar.

 

Às vezes a gente precisa tomar um susto pra entender tudo isso.

 

Às vezes a gente precisa achar que vai morrer pra aprender que você pode deixar de sofrer e sabotar sua vida apenas tendo fé de que as coisas vão dar certo.

 

Esse episódio foi como um trailer do grande filme que ia estrear dali uns meses, no comecinho de maio de dois mil e quatorze, quando tive um treco e precisei me reinventar completamente, como única forma de me recuperar e conquistar o que eu mereço.

 

E, sim, no dia seguinte do passeio com o eqüino psicopata, fiz questão de ir de novo.

 

Pedi para o tratador me dar o maior cavalo que estivesse com a terapia em dia.

 

E não só fiz o passeio com o grupo como, depois, ele me levou pra fazer o caminho inteiro novamente, a galope, só eu, ele e os dois cavalos.

 

Foi uma das coisas mais libertadoras que já experimentei. Não tanto pelo passeio, mas por eu ter vencido meu medo.

 

Sem perceber, eu soltei a alça da sela e fiquei só com as rédeas na mão.

 

Algumas coisas ruins são bênçãos disfarçadas.

 

É que a gente fica tão assustado que demora pra perceber.

 

Às vezes um dia, às vezes uma vida inteira.

Leia o primeiro capítulo:

© 2019 por Roberta Carusi, autora de livros de humor cotidiano