Show More

Ponto de ônibus. Fila do banco.

Sala de espera de médico. Vagão do metrô.


E você lá com aquele 3G safado

que trava as redes sociais.


Sua alternativa é conversar com a velhinha

que está ao seu lado falando

sobre o aumento no preço do tomate.


Sua alma é sugada para fora do corpo lentamente até que só reste em você

um profundo mau-humor.


Seus problemas acabaram!


Neste livro tem um monte de crônicas rápidas, com diálogos que não enrolam,

engraçadas a ponto de fazer você sorrir

e atrair crushes,

mas não a ponto de fazer você gargalhar

e passar vergonha no ônibus lotado.

e-book e impresso

Leia a primeira crônica:

O COXINHA

 

 

- Bom dia.

 

- Bom dia, o senhor é quem?

 

- Sou o Batman.

 

- Por favor, seu Bátima, não abana essa capa de novo, porque eu tô varrendo e vai espalhar a poeira toda.

 

Por que abrir uma filial da Liga da Justiça no Brasil? Um país sem tradição em super-heróis, Batman já podia imaginar o que seria dele durante o Carnaval. Já não bastava essa onda de vampiros no cinema? Não é fácil ser morcego.

 

- Sempre atrasado, né, Batman?

 

- Me desculpem, mas aqui em volta é tudo proibido estacionar, tive que deixar o bat-móvel aos cuidados de um flanelinha e não sei, não, tô preocupado.

 

- Tá preocupado porque, sem seu carro, você não chega em lugar nenhum. Não sabe voar, não sabe lançar teia de aranha, não tem supervelocidade...

 

- Vocês vão começar com o bullying de novo?

 

- Bom, vamos lá. Homem-Aranha, por favor, me alcança ali o suco de caju?

 

Uma teia atravessa a sala, gruda na jarra de suco e é puxada de volta com destreza.

 

- Obrigado. Quem vai fazer a ata?

 

Todos olham para o Batman.

 

- Pô! De novo? Sempre eu.

 

- Estão presentes nesta terceira reunião da Liga da Justiça – Filial Rio de Janeiro, todos os super-heróis convocados para atuar no Brasil: Super-homem, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha e Aquaman.

 

- E eu?

 

Risadas disfarçadas.

 

- E Batman.

 

- Eu também sou um super-herói, pombas!

 

- Continua, Super-Homem, eu marquei um futevôlei às quatro.

 

- Primeiro assunto: a Bolsa-Herói. Não sei se vocês estão sabendo, mas foi confirmado que todos nós, desta filial, vamos ter direito a uma ajuda financeira mensal de...

 

- Sério?

 

- Sério.

 

- Por quê?

 

- Parece que é de praxe por aqui uma ajuda do Governo para quem não tem muitos recursos.

 

- Eu acho justo. Essa história de largar tudo para salvar a humanidade o tempo todo já me fez perder muitos empregos.

 

- Mas, Homem-Aranha, você é fotógrafo freelancer.

 

- Sim, mas o jornalismo impresso está em crise e os portais de internet não têm o menor interesse em fotos do Homem-Aranha. Notícia velha. Sabe aquelas fotos minhas fingindo que estava comendo acarajé? Ninguém se interessou. Agora estou trabalhando como garçom. Pegar as coisas com teia acelera bem o trabalho.

 

- Eu estou com um problema sério, gente.

 

- O que aconteceu, Mulher-Maravilha?

 

- Meu jato ainda está retido na Receita Federal, é muita burocracia!

 

- Aquaman, você trabalhava no Sea World, onde vai trabalhar agora?

 

- Cara, arrumei um emprego no Wet’n Wild. Eu tenho que ir pelo mar até Mongaguá e daí tem um carro da Liga me esperando para me levar até Campinas.

 

- E quando tiver uma emergência, você vai precisar ir de carro até Mongaguá pra chegar no mar e poder atender?

 

- Pois é.

 

- Gente, sério mesmo, alguém conhece um despachante? Tem um e-mail aqui meio que tirando minhas esperanças de liberar meu jato invisível. Dizem que ele não está lá.

 

- Batman?

 

- Oi.

 

- O que é isso?

 

- Churros.

 

- Churros?

 

- É. Tem um pra cada um.

 

Troca de olhares.

 

- Por que você trouxe churros?

 

- Porque eu sou um cara gentil.

 

- Você está querendo que a gente goste de você. Mas, Batman, não tem jeito: você não é um super-herói!

 

- Eu tenho uma capa, ó!

 

- No máximo, você é um herói.

 

- Você não tem nenhum superpoder, Batman! Você tem um cinto! Já parou pra pensar nisso?

 

- Você só é herói porque você é rico. Sem seu carro e seu cinto, você faria o quê quando precisasse salvar a humanidade?

 

- O Ironman também é rico.

 

- O Ironman foi na festa de aniversário do Lanterna Verde semana passada?

 

- Não.

 

- Não foi. Nem ele, nem você. Reflita.

 

- Bom, gente, continuando. Assunto dois: moradia. O preço dos aluguéis na cidade estão impraticáveis e a Liga nos alocou na cidade de Niterói até qu...

 

- Eu acho que não importa se eu tenho superpoder ou não, o fato é que eu salvo as pessoas.

 

- Ai, Batman, pelo amor de Deus, esquece isso.

 

- Não esqueço, isso é bullying! Já não chega as piadinhas que vocês mandam por e-mail pra todo mundo falando das minhas preferências sexuais, não?

Mulher-Maravilha tira os olhos do celular e olha para todos um tanto culpada.

 

- Tá, Batman, a gente te ama. Agora, sobre a moradia, parec...

 

- Não, sério: então o Homem-Aranha também não é super-herói. Ele não voa.

 

- Batman?

 

Batman começa a olhar para todas as direções, à procura do Homem-Aranha, até encontra-lo grudado no teto comendo um brigadeiro calmamente.

 

- Oi.

 

- Se você conseguir chegar até aqui em cima sem seu cinto, eu aceito ser um herói de segunda linha como você.

 

- Segunda linha?

 

- Você é tipo o ex-BBB dos super-heróis, Batman.

 

- Aliás, eu não acho justo o Batman receber a Bolsa-Herói.

 

- Aaaaah, mas se eu sou só herói, eu tenho que receber a Bolsa-Herói e vocês que fiquem esperando a Bolsa-Super-Herói então. Rá!

 

- A Bolsa-Herói não deveria ser entregue a quem é coxinha.

 

- Coxinha, eeeeu?

 

- Co-xi-nha. Filhinho de papai riquinho.

 

- Batman, o Aquaman tá certo, você pode pagar todas as suas despesas e nem emprego tem.

 

- Gente, mas meu mordomo, aqui no Brasil, tem que ganhar pela PEC das Domésticas, vocês não têm ideia de como a despesa aumentou. Fora o que eu tô levando de multa!

 

- Multa de quê?

 

- Ora, cada vez que tenho que salvar alguém... quem acha vaga? Tenho que largar o carro em qualquer lugar, o que eu já tive que pagar de guincho vocês não têm ideia.

 

- É, não temos mesmo, porque a gente voa, tem teia, supervelocidade e tal, como super-heróis. Continuando. Moradias...

 

- Com licença.

 

- Pois não?

 

- O senhor pode levantar os pés, porque eu tô passando o pano?

 

- Eu... hã... ok, pode passar.

 

- Tô aqui pensando.

 

- Ai, Batman, como você é chato.

 

- A Mulher-Maravilha também não tem nada que receber a Bolsa-Herói então.

 

- Batman, se tem duas pessoas aqui que precisam de uma boa bolsa somos eu e você.

 

Risadas histéricas ecoam pela sala. Valdete, a moça da limpeza, até se assusta com tanto barulho. Homem-Aranha dá socos na mesa. Aquaman segura a barriga quase caindo da cadeira.

 

- Rá rá rá, que engraçado. Mas, sério: ela tem um jatinho próprio. Vocês já foram na casa da família dela? Tem um haras até!

 

- Acontece que eu sempre dou carona pra todo mundo e convido quando tem churrasco em casa, não é não, meus amigos?

 

Aplausos.

 

- Como é seu nome?

 

- Valdete.

 

- Valdete, semana que vem, nós vamos fazer uma festa lá em casa e você está convidada.

 

- Eu vou ter que limpar tudo depois?

 

- Não, eu contratei uma empresa de limpeza. Você é minha convidada.

 

- Ah, então, obrigada, eu vou.

 

- Viu, Batman? Quantas vezes você convidou a gente pra ir na Bat-Caverna?

 

- Acontece que a Bat-Caverna é secreta, não posso levar ninguém.

 

- Batman, eu vou sugerir que você seja substituído pelo Homem-Elástico.

 

- Por quê?

 

- Porque obviamente isso não vai dar certo.

 

- O senhor pode levantar os pés, por favor? O pano.

 

- Volta lá pra Gotham City, Batman, o Brasil é muito grande, imagina se você está no Rio e precisa ir pra Cuiabá salvar alguém. Três dias de carro, meu querido.

 

- E o Bat-Móvel não tem amortecimento para as estradas daqui.

 

- Fora que essa roupa preta, com esse sol... você não fica todo assado?

 

- Eu saio só à noite.

 

- Pois então. Mas aqui tem emergência o dia todo. Você nem vai ver o Bat-Sinal no céu.

 

- Ok, eu vou pra Gotham City. Mas lá vocês não vão poder salvar ninguém. É território meu!

 

- Batman, Batman... e se cair um meteoro?

 

- Você e seu carro vão fazer o quê? Estacionar no lugar do choque?

 

- Ok, então em caso de meteoro, vocês podem ir.

 

- Podem ir, não, é um favor que a gente vai fazer pra você. Acho que você tem que pagar uma mensalidade para que valha a pena, pra gente ajudar você na sua cidade.

 

- Como assim pagar?

 

- Ora, é como uma Bolsa-Herói. Um seguro de que a gente vai atender você no caso de uma emergência que não possa ser resolvida com um carro e um cinto.

 

- Tipo um seguro?

 

- E não é em churro o pagamento, é em grana mesmo.

 

- Vocês mudaram muito desde que a gente chegou no Brasil.

 

- A gente não fica preso no trânsito, Batman, deu tempo de descobrir algumas coisas deste lindo país.

 

- Seu Superómi?

 

- Fala, Valdete.

 

- Eu já terminei a limpeza, quem vai me pagar a diária?

 

- Ele.

 

- Eu?

 

- Batman, você tem posses. Nós temos poderes. Aceite.

 

- Quanto é a diária?

 

- Cento e quarenta. Posso levar esses churros?

 

- São seus. Toma aqui o dinheiro.

 

Valdete imóvel olhando fixamente para o Batman.

 

- O que foi?

 

- E a condução?

 

Batman olha de um por um em busca de uma ajuda financeira. Mulher-Maravilha olhando fixamente o celular, Aquaman tomando água, Homem-Aranha lançando teias na palmeira e Super-Homem passando um e-mail pedindo a transferência do Homem-Elástico.

 

- Eu não tenho mais dinheiro, só estou com o cartão de crédito... mas posso te dar uma carona no Bat-Móvel.

 

- Aquele carro pretão aí na frente?

 

- Isso. Vamos? Preciso preparar minha mudança.

 

- Seu Bátima, o senhor não vai conseguir sair com o carro, não, levaram os pneus.

 

Sorrisos atentos, uma risada tentando ser contida atrás das mãos.

 

- Mas aqui é assim mesmo, não se preocupe, tem um chegado meu aqui perto que vende estepe roubado; se ele tiver quatro iguais, pronto.

 

- S-será que ele tem?

 

Tinha. Quatro pneus perfeitos para o carro, porém sujos de teia de aranha e com umas escaminhas de peixe.

 

Um high-five foi ouvido na saída dos super-heróis da reunião.

 

Ninguém vem pro Brasil pra dar mole pra coxinha.

© 2019 por Roberta Carusi, autora de livros de humor cotidiano