As primeiras 50 #croniquinhas postadas

nas minhas redes sociais reunidas aqui,

com todos os absurdos,

micos e indignidades

de passagens reais da minha vida.

São curtinhas, pra caber na legenda

do Instagram, porque

levanta a mão quem curte

textão quilométrico!

Silêncio.

Ah não, seu tio que manda

power point pelo whatsapp

levantou a mão ali!

Elas vão continuar sendo publicadas.

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(ou espere o segundo livro com as próximas 50)

3 #croniquinhas pra você se divertir:

cronicas humor cotidiano besteirol liter

Foto: capa LP Conga Conga Conga

#20 - MINHA VIZINHA É A GRETCHEN

No final dos anos 70, a Gretchen tinha status de rockstar. Ok, para uma parte da população. Mas para as crianças, certamente, metralhadas pelas imagens rebolantes do traseiro com purpurina dela em todos os programas de TV. Entenda, eram tempos de chacretes popozudas e Bozos cheiradores de cocaína.

Na minha rua, éramos uma turma de crianças que passavam a tarde andando de bicicleta, equilibrando-se em cima de patins, caindo e ralando o joelho, tocando campainhas e saindo correndo dando risada.

Nosso território era composto de todo um bloco com duas ruas compridas e mais dois quarteirões laterais, em um bairro residencial de classe média.

E um dia descobrimos que a Gretchen era nossa vizinha.

Morava ela, a Sula, a família toda em um sobrado na rua de cima da minha.

Descoberto esse fato emocionante, organizávamos tocaias, plantões e revezamentos para conseguir vê-la alguns segundos, entrando ou saindo. E com o sonho de ela descer do carro e ir conversar com a gente.

O que contamos para todas as pessoas que encontramos nos cinco anos seguintes: um dia, estávamos sentados na calçada esperando, quando a Gretchen chegou em um carro com motorista. Vimos quando ela desceu, cabelos ao vento, roupa cheia de brilhos e entrou em casa. Tem quem jure que ela piscou e sorriu para a gente, do outro lado da rua.

O que realmente aconteceu: um carro entrou na casa levando uma mulher de cabelos pretos no banco de trás.

Pra ser sincera, até hoje não tenho certeza de que a Gretchen realmente morava lá. Mas sigo contando que morava porque, sejamos sinceros, é uma possibilidade. Vovó Mafalda morava umas cinco ruas pra trás.

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#22 - SENSUELLEN NA ACADEMIA

Teve um dia que eu estava na academia. Era um salão imenso, todo aberto, com os equipamentos de musculação e as esteiras ergométricas. Eu costumava ir na hora do almoço, que era praticamente deserto. Era eu e as mesmas cinco pessoas sempre.

Pois um dia apareceu um cara. Alto, bonitão. Na dele. Estava fazendo sua série com os halteres sem ligar pra ninguém. Não estava fazendo poses constrangedoras no espelho nem tirando selfies com um peso maior do que poderia aguentar. Portanto, um cara com potencial, até ali, pra ser bacana.

E foi então que, entre uma série e outra, olhei na direção dele e ele estava me encarando pelo espelho. Hmmm.

Me fiz de desentendida, porque esse é o jogo, e segui para o próximo aparelho. Quando olhei... ele estava me olhando. Interessante.

A partir daí eu fiz minhas séries como se estivesse em uma sessão de fotos: uma mistura de Sensuellen com elegância e discrição. Checando de quando em quando se eu estava abafando. Algumas vezes ele estava concentrado no treino, em outras foi flagrado olhando. Oh yeah.

Quando eu estava quase fazendo pole dancing no TRX, ele terminou o treino, abaixou, tateou um pouco o chão, achou sua bengala para cegos, desdobrou, travou e foi embora, procurando a porta de saída, prontamente auxiliado pelo professor que, com toda certeza, deve ter ficado mais ou menos três horas rindo da minha cara.

#36 - MARIA BETHÂNIA DE RÉ NA MOTO

Meu cabelo e eu temos décadas de convivência em um relacionamento abusivo, onde eu sou, de longe, a vítima. Tenho pra mim que, no dia do meu batizado, alguma parente com a cara da Angelina Jolie chifruda se aproximou do meu bercinho e lançou uma praga em que minha cabeleira seria mais caudalosa e instável do que o rio São Francisco, mais revolta e imprevisível do que o vulcão Calbuco e teria a personalidade da Narcisa Tamborindeguy segurando um garfo enfiado na tomada.
Meu cabelo é crespo. Perceba: não é cacheado, é crespo. E grosso. E cheio. Seco, não passa do ombro. Se eu deixar crescer, ele cresce para
os lados e para cima. Expectativa: Taís Araújo. Realidade: minha cabeça transformada em um panetone.
Quando eu era pequena, minha mãe escovava meu cabelo até ficar vaca-lambeu. No processo, minha orelha encontrava o ombro algumas vezes.
Mais velha, usava só cabelo curtinho, porque era impossível sair na rua sem ser recolhida a algum abrigo pela Prefeitura usando apenas os shampoos e creme-rinses da época.
Adolescente, eu parecia a filha da Magic Paula com o Urso do Cabelo Duro. Em um dia de ventania.
E, já adulta, com todos os produtos modernos à disposição, depois de estragar o cabelo, tentando domá-lo aos 30 anos, alterno dias em que pareço a Elba Ramalho em uma tempestade de areia, dias em que pareço a Vanessa da Matta no olho do furacão e dias em que pareço aquela vizinha da Preciosa, que tinha um cabelo que misturava o penteado do Bozo com um ninho de pomba atropelado costurado na cabeça.
Porém, a definição mais fiel a como é meu cabelo em seus piores dias é essa: imagina a Maria Bethânia. Imaginou? A Maria Bethânia andando de moto, sem capacete. Mas de ré. Imagina o cabelo dela quando a moto para. Bingo! Esse aí é exatamente meu cabelo 99% do tempo.
Imagina quantos pentes já quebrei.

© 2019 por Roberta Carusi, autora de livros de humor cotidiano